«Quando leio, há uma voz que lê dentro de mim. (…) A voz que ouço quando leio existe dentro de mim, mas não é minha. Não é a voz dos meus pensamentos. A voz que ouço quando leio existe dentro de mim, mas é exterior a mim. É diferente de mim. (…)
Não foram poucas as vezes que a voz que ouço quando leio me fascinou com as palavras que disse. Muitas vezes as suas pausas acenderam imagens no meu interior, nos lugares escuros que transporto dentro de mim e não conheço. Muitas vezes essa voz iluminou lugares dentro de mim: túneis que não conhecia. Muitas vezes vejo essa voz avançar por eles com uma tocha. Eu sei que a voz que ouço quando leio não tem medo. (…) Fico a ouvi-la durante horas e tento não esquecer nada porque quero aprender a perder-me menos vezes de mim próprio.»(‘A voz que ouço quando leio’, “Abraço” de José Luís Peixoto)
dentro de mim, há uma voz que lê o que me rodeia. o que vejo, o que oiço, o que me aquece e o que me arrepia. essa voz é recetor e emissor ao mesmo tempo, pois recebe todos esses estímulos, processa-os e produz a sua própria mensagem. umas vezes, fala-me com palavras concretas e coerentes, criando algum tipo de narrativa. outras vezes, o seu discurso deixa-me perdida numa montanha russa de afasia e tourette.
a voz que lê o que me rodeia gosta de metáforas, de legendar imagens com palavras de outras pessoas e de situar tudo com uma banda sonora. digo “gosta de” porque sei que a faz sorrir, mas, na verdade, é mais correto dizer “precisa de” ou “tem que”. palavras e apenas palavras não chegam. as palavras são bidimensionais e o que a voz que lê o que me rodeia tem para dizer requer uma multiplicidade de dimensões. e subdimensões. não se trata de complexidade mas de pormenor. daí a renda de bilros com as metáforas que ligam ideias e expandem o horizonte, com as palavras de outros que trazem novos narradores e focalizações diferentes da minha, com a música que… bem… a música que faz voar e sonhar e querer e sorrir e dançar.
a voz que lê o que me rodeia é maternal q.b.. diz-me diretamente aquilo que preciso de ouvir, mas preocupa-se comigo e tenta preparar-me para a dissonância cognitiva que sabe que ela própria vai provocar.
a voz que lê o que me rodeia irrita-se quando eu não lhe dou importância, quando tento convencer-me de que a leitura que ela faz é mais negativa do que a realidade ou quando, por razões com maior ou menor razão de ser, a acuso de estar a ver as coisas com lentes cor de rosa.
quando volto atrás para lhe dar razão, a voz que lê o que me rodeia sorri e não perde a oportunidade para me lembrar que tenho mais razões para confiar nela do que para não confiar.