com os pés bem assentes no teto

pestanejo e é como se estivesse a abrir os olhos ao acordar. como se o pestanejar fosse o necessário para ser teletransportada para uma realidade alternativa, mas daquelas dos sonhos, daquelas em que estamos permanentemente à espera de voltar à realidade das coisas reais.

pestanejo.
pestanejo e ao abrir os olhos está tudo de pernas para o ar. e esse tudo é tão tudo, e o de pernas para o ar é tão real que duvido. duvido que esteja tudo de pernas para o ar. duvido que seja o tudo que está de pernas para o ar e não eu que estou de pernas para o ar. olho para os meus pés e vejo-os pousados no teto mas sinto-os firmes no chão. ponho a mão na cabeça para sentir o cabelo, e também ele está sossegado, pousado na cabeça. se o meu cabelo não está de pernas para o ar, eu não estou de pernas para o ar. se eu não estou de pernas para o ar, os meus pés estão firmes num teto que devia ser o chão. o chão é que está de pernas para o ar. tudo está de pernas para o ar.

pestanejo.
abro os olhos.
ela olha para mim e pisca-me o olho.
abro os olhos e vejo-a inteira, redonda, brilhante. cheia e brilhante num teto escuro.
ela olha para mim e, brilhante, sorri e pisca-me o olho. “sim, estou cá em cima. e, não, não estás de pernas para o ar. não és tu que estás de pernas para o ar.”

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