um castelo

– constrói-me um castelo.
– sim.
– tem que ser sólido e resistente.
– sim. será sólido e resistente.
– e com muralhas altas e fortes que nos protejam em tempo de guerra.
– sim. ficaremos protegidos, será o nosso porto de abrigo.
– estou a contar contigo.
– eu sei.

… … …

– o que é isto?
– é o teu castelo.
– não, este não é o castelo que eu te mandei construir.
– não é sólido e resistente?
– é. mas eu perco-me nos corredores e tem muitas salas que eu não sei para que servem e outras que eu simplesmente desconheço.
– as muralhas não são suficientemente altas e fortes para nos protegerem?
– são. no entanto, as pessoas que cá vivem fazem-me vénias mas é para ti que sorriem. este castelo é teu, e não foi isso que eu te disse para fazeres. eu disse-te para construíres o meu castelo.

o castelo foi destruído.

– ainda tens as muralhas. são altas e fortes. e as pessoas que lá vivem podem ajudar-te a construir o castelo que tu queres.

as muralhas foram destruídas.

ficaram as árvores que tinham sido plantadas dentro das muralhas e a envolver o castelo. eram altas e fortes e protegiam os pássaros na guerra contra o vento frio do inverno.

com os pés bem assentes no teto

pestanejo e é como se estivesse a abrir os olhos ao acordar. como se o pestanejar fosse o necessário para ser teletransportada para uma realidade alternativa, mas daquelas dos sonhos, daquelas em que estamos permanentemente à espera de voltar à realidade das coisas reais.

pestanejo.
pestanejo e ao abrir os olhos está tudo de pernas para o ar. e esse tudo é tão tudo, e o de pernas para o ar é tão real que duvido. duvido que esteja tudo de pernas para o ar. duvido que seja o tudo que está de pernas para o ar e não eu que estou de pernas para o ar. olho para os meus pés e vejo-os pousados no teto mas sinto-os firmes no chão. ponho a mão na cabeça para sentir o cabelo, e também ele está sossegado, pousado na cabeça. se o meu cabelo não está de pernas para o ar, eu não estou de pernas para o ar. se eu não estou de pernas para o ar, os meus pés estão firmes num teto que devia ser o chão. o chão é que está de pernas para o ar. tudo está de pernas para o ar.

pestanejo.
abro os olhos.
ela olha para mim e pisca-me o olho.
abro os olhos e vejo-a inteira, redonda, brilhante. cheia e brilhante num teto escuro.
ela olha para mim e, brilhante, sorri e pisca-me o olho. “sim, estou cá em cima. e, não, não estás de pernas para o ar. não és tu que estás de pernas para o ar.”

deixa-me.tirar-te.fotografias

para com isso! deixa-me tirar-te fotografias.
és um ranhoso. és mesmo ranhoso.
podia dizer-te que um dia vais querer fotografias tuas aos 5 anos e não vais ter nenhuma de jeito, mas esse argumento é tão foleiro como tu és ranhoso.

eu quero tirar-te fotografias.
eu quero colecionar os teus sorrisos todos.
eu quero colocar em pausa o teu ar de desafio para que continue a desconcertar-me mesmo depois de virares costas e ires brincar com os monstros do ben 10.
eu quero capturar frames épicas da tua magnífica naturalidade, quer seja a olhar pela janela ou a subir árvores.

para de ser ranhoso e deixa-me tirar-te as fotografias que eu quero tirar.