tu que te preocupas comigo,
tu que receias que eu esteja sozinha e que ache que não é suposto precisar de ti,
tu que nem sempre consegues dizer-me o que te vai na alma e arrancar de mim o que vai na minha,
não receies a minha autonomia e a forma como prezo os momentos que consigo que sejam 100% só meus.
não esperes que eu abdique da minha necessidade de me entender com as minhas ideias antes de ser capaz de as pôr cá fora.
mas acredita que foste e és fundamental para eu aprender a tomar conta de mim, a tomar conta dos meus e a não ter vergonha de pedir ajuda sempre que preciso.
tu que te preocupas comigo,
tu que receias não estar suficientemente atento e deixar passar sinais de que preciso de ti,
tu que nem sempre consegues ficar seguro de que leste tudo o que há para ler nas entrelinhas,
não receies que eu não te avise caso o teu recetor esteja mal sintonizado.
não esperes que me esconda atrás de segundos sentidos e expressões ambíguas.
mas acredita que tens o descodificador certo para perceber, nas tais entrelinhas, o significado do título de qualquer episódio.
tu que te preocupas comigo,
tu que receias que, um dia, eu chegue à conclusão de que ficas aquém e de que, afinal, não preciso de ti para nada,
tu que nem sempre consegues ver o que achas que devias ver,
não receies as nossas diferenças pois foram elas que nos trouxeram até aqui.
não esperes que deixe de te dizer o que preciso de te dizer, o que acho que precisas de ouvir e, acima de tudo, o que, se eu não to disser, não vais ouvir de ninguém.
mas acredita que és mesmo uma estrela que me guia e um cisne negro que desafia todas as probabilidades.
tu que te preocupas comigo,
tu que receias que, eventualmente, a bílis tome conta de tudo e eu desista,
tu que nem sempre consegues ajudar-me a manter-me positiva e “luminosa”,
não receies que o amargo se sobreponha ao chocolate.
não esperes que me iniba de ir ter contigo quando preciso da tua energia.
mas acredita que, para além do doce e da luz, tenho mais ferramentas e um esqueleto de adamantium.
tu que te preocupas comigo,
tu que receias que eu possa estar mais ausente por desinteresse,
tu que nem sempre consegues sentir absoluta confiança nas minhas palavras,
não receies que a frequência com que te procuro reflita a frequência com que penso que, para mim, tu contas.
não esperes que eu faça fretes (porque não faço!).
mas acredita que se, em algum momento, trocámos xis, isso é que vale.
tu que te preocupas comigo, tu que receias que nem sempre consigas não recear e não esperar, acredita: fazes do meu mundo um sítio onde a vontade de dar xis é mais frequente do que a vontade de virar costas. acredita que fazes de mim mais… eu.