pôr um ponto final. iniciar um novo capítulo.
à primeira vista, parecem sinónimos.
mas não são. não são mesmo.
basta pensar que, num caso, o enfoque está no passado. no outro, no futuro.
um pressupõe um estado. o outro indicia um processo.
um cria uma quebra, um corte. o outro abre horizontes.
um não deixa margem para “e depois?”. o outro exige um “e agora?”.
podemos pôr um ponto final naquilo que queremos deixar para trás.
devemos pôr um ponto final naquilo que não queremos ter pela frente.
podemos dizer a plenos pulmões e com toda a assertividade “e ponto final!”.
devemos saber quando a nossa cabeça, o nosso corpo, a nossa alma, a nossa sanidade nos pedem um ponto final. e devemos ser capazes de os/nos respeitarmos e não deixar que esse firme ponto final se transforme em lânguidas reticências.
ninguém pode decidir iniciar um novo capítulo e simplesmente fazê-lo.
devemos estar disponíveis para iniciarmos novos capítulos e preparados para o processo, para a transição, para o que possa haver do outro lado da página.
mas ninguém pode decidir “é agora. vou iniciar um novo capítulo!”.
no início de um novo capítulo podemos ser agentes mas somos sempre apenas uma das variáveis.
nos novos capítulos, tudo pode acontecer. também pode acabar por não acontecer nada. andar em círculos também é uma possibilidade.
não sabemos. não se sabe.
um dia, acordamos (de um sono ou de outro estado qualquer) e damos por nós a estrear um capítulo novo. mas desengane-se que pensar que um “beam me up, scotty!” é suficiente; também não existem portais.
o processo que permite iniciar um novo capítulo é uma viagem. e somos nós que a fazemos.
umas vezes de sapatilhas, outras de stilettos. há até quem a faça descalço.
é uma viagem. mas daquelas em que vamos ocupados, seja a ler, a ouvir música, a conversar, a ver a chuva cair, a falar sozinhos, a chorar ou até a pesar figos.
às vezes, só damos pela viagem quando nos apercebemos de que já passámos a nossa paragem e nos esquecemos de sair.
e é quando nos apercebemos da viagem que nos apercebemos de que iniciámos um novo capítulo.
ou é um flash ou é um momento em que o tempo simplesmente pára — não há meio termo.
e, aí, voltamos a prestar atenção à prosa. o que aconteceu à personagem principal? é uma personagem plana ou evoluiu? mudou a focalização do narrador? mantém-se a ação principal ou precisamos de apelar à analepse para perceber em que ponto as narrativas se encaixaram e de que forma é que foi feito um update à catalogação das personagens secundárias?
e lá vamos nós, munindo-nos de apps de análise caracterização indireta e tags de localização psicológica, tentar perceber que pontos finais pontuaram o capítulo anterior e que reticências se alongaram para o capítulo novinho em folha. e começa a caça aos pontos de exclamação que se escondem por detrás de interrogações e dúvidas.
ninguém pode decidir iniciar um novo capítulo e simplesmente fazê-lo.
mas é tão importante sermos capazes de pôr os pontos finais que a nossa cabeça, o nosso corpo, a nossa alma, a nossa sanidade nos pedem… caso contrário, nunca estaremos disponíveis para o que possa haver do outro lado da página.