tu vês tudo. sempre viste. olhaste para mim e viste-me.
viste a alma anarca quando à minha volta só viam a miúda que ia dançar para cima das colunas. viste e quiseste ver mais. e olhaste para mim e não me deixaste fugir lá para o sítio para onde eu ia quando é mais fácil sorrir e continuar a andar. viste-me e ouviste-me. e quiseste saber. e nem tiveste que perguntar. bastou estares lá. bastou não teres pressa nem agenda. bastou não te incomodares com as interpretações de quem se entendia com direito a interpretar coisas.
entretanto, tropeçámos na vida. passaram anos, décadas quase (pelo menos, é o que diz o calendário e não a minha alma anarca). e mais um tropeção e voltámos a estar frente a frente. e voltaste a perguntar por mim. e eu estava de quatro e – tive mais noção disso quando te reencontrei – perdida de mim. e viste-me novamente. e olhaste para mim e não me deixaste fugir lá para o sítio para onde eu ia quando é mais fácil sorrir e continuar a andar. e ouviste-me. e obrigaste-me a ouvir-me. sim, obrigaste-me. porque tens autoridade para me obrigares a estas coisas, mas, acima de tudo, porque tens toda a credibilidade para me dizeres que me estou a perder de mim. e a diferença que faz ter-te a jeito para me dizeres essas coisas!
e, meu querido Optimus Prime, a confiança para me atirar ao black russian é a mesma. e é o que revelas quando revelas os momentos que capturas, os momentos em que o sorriso é fácil, incontornável e absolutamente transparente, momentos em que estou em casa, momentos em que me aninho num abraço de qualidade indescritível.
tu vês-me. vês a minha luz, vês o que reflito, vês o que me alimenta. mas também vês o que de mais escuro existe em mim, o que me faz aninhar, o que me faz ter vontade de semear caos na tentativa de fazer implodir perniciosas ideias de ordem.
e sempre que o mundo gira ao contrário, e sempre que preciso de desconstruir para construir, e sempre que preciso de olhar para mim na terceira pessoa…
… you see everything, you see every part
you see all my light and you love my dark
you dig everything of which I’m ashamed
there’s not anything to which you can’t relate
and you’re still here
(Alanis Morissette)