a mãe da minha mãe, a minha mãe e a mãe do meu filho

a mãe da minha mãe teria hoje 82 anos. fazia um pudim de ovos como nunca haverá igual. estava sempre a contar com a gargalhada que qualquer piada do genro iria provocar. na praia besuntava-me com nivea. deixava-me ouvir os discos da amália e fazer a árvore de natal. sempre gostou de me ver de minissaia (por muito curta que fosse) e achou piada aos 3 furos que fiz em cada orelha. via no bisneto a continuação do zeca dela. ria-se alto e fazia anos no mesmo dia que eu.

a minha mãe nasceu a meio do século XX. foi levada da terra onde nasceu para a terra dela, onde cresceu dentro de vestidos rodados e descalça sempre que podia. era a menina do papá dela até passar ser a do meu. obrigava-me a desenhar vezes sem conta os patos que ilustravam as cópias, tinham que ficar “perfeitinhos”. era chamada à escola para ouvir dizer que eu desestabilizava a aula e virava a turma do avesso. ensinou-me a fazer croché, a bordar e a fazer a minha roupa. gosta de dançar e de ouvir george michael (e foi com as “meninas” vê-lo ao vivo). é a melhor avó do mundo e uma sogra fora de série. faz um bacalhau com banana que, por vezes, me faz pensar que se calhar deus existe. queixa-se que eu não lhe ligo. e acha piada quando alguém vê fotografias dela em miúda e pensa que sou eu.

a mãe do meu filho nasceu no ano da revolução que juntou as forças armadas com o apelo estético das flores vermelhas. tem a proverbial “personalidade forte” e lida mal com autoridade. cresceu com a sorte de ter uma companheira para sair da sala pela janela, dançar até cair para o lado e completar frases como “alcibíades, alcibíades,…”. não tem pachorra para cozinhar por obrigação mas adora fazer arroz de atum para partilhar com gente querida. come chocolate como se não houvesse amanhã. procura ser leal, coerente e transparente e tem um grande talento para fazer inimigos. cada vez mais vai criando anticorpos que rejeitam relacionamentos ocos e faz questão de celebrar cumplicidades, risos e proximidades improváveis. é uma mamã-das-que-gostam-do-wolverine (em oposição a mamãs-que-gostam-do-mickey), completamente apaixonada pelo seu príncipe do caos. acha que a música alimenta a alma e mantém a sanidade do corpo. e dança. dança muito. e pode ser ao som de ala dos namorados ou marilyn manson. adora caveiras e é devota a saramago, goscinny e mark sandman. ao que parece, está a desenhar a sua história na pele. ah! e acredita que adamantium é que é!

you see everything, and you’re still here

tu vês tudo. sempre viste. olhaste para mim e viste-me.

viste a alma anarca quando à minha volta só viam a miúda que ia dançar para cima das colunas. viste e quiseste ver mais. e olhaste para mim e não me deixaste fugir lá para o sítio para onde eu ia quando é mais fácil sorrir e continuar a andar. viste-me e ouviste-me. e quiseste saber. e nem tiveste que perguntar. bastou estares lá. bastou não teres pressa nem agenda. bastou não te incomodares com as interpretações de quem se entendia com direito a interpretar coisas.

entretanto, tropeçámos na vida. passaram anos, décadas quase (pelo menos, é o que diz o calendário e não a minha alma anarca). e mais um tropeção e voltámos a estar frente a frente. e voltaste a perguntar por mim. e eu estava de quatro e – tive mais noção disso quando te reencontrei – perdida de mim. e viste-me novamente. e olhaste para mim e não me deixaste fugir lá para o sítio para onde eu ia quando é mais fácil sorrir e continuar a andar. e ouviste-me. e obrigaste-me a ouvir-me. sim, obrigaste-me. porque tens autoridade para me obrigares a estas coisas, mas, acima de tudo, porque tens toda a credibilidade para me dizeres que me estou a perder de mim. e a diferença que faz ter-te a jeito para me dizeres essas coisas!

e, meu querido Optimus Prime, a confiança para me atirar ao black russian é a mesma. e é o que revelas quando revelas os momentos que capturas, os momentos em que o sorriso é fácil, incontornável e absolutamente transparente, momentos em que estou em casa, momentos em que me aninho num abraço de qualidade indescritível.

tu vês-me. vês a minha luz, vês o que reflito, vês o que me alimenta. mas também vês o que de mais escuro existe em mim, o que me faz aninhar, o que me faz ter vontade de semear caos na tentativa de fazer implodir perniciosas ideias de ordem.

e sempre que o mundo gira ao contrário, e sempre que preciso de desconstruir para construir, e sempre que preciso de olhar para mim na terceira pessoa…

… you see everything, you see every part
you see all my light and you love my dark
you dig everything of which I’m ashamed
there’s not anything to which you can’t relate
and you’re still here

(Alanis Morissette)

http://www.youtube.com/watch?v=C6kLbDHu0yc