“não se pode ter muitos amigos”

“não se pode ter muitos amigos.”, diz o inspirador MEC.

assumindo que se trata de um “poder” de capacidade e não de possibilidade, não podia estar mais de acordo.

neste contexto, o da amizade, o de deixar que entrem na nossa vida e sejam criadores intelectuais de estados de espírito e de emoções, o poder-capacidade é mais um superpoder, enquanto que o poder-possibilidade procura estabelecer um equilíbrio (ou desequilíbrio) de poderes.

os superpoderes são supercapacidades que permitem fazer coisas. ou capacidades que permitem fazer supercoisas. e a capacidade de deixar que alguém entre na nossa vida — deixar mesmo, no sentido de dar o flanco; e entrar mesmo, no sentido de passar a ocupar parte do espaço interior — é uma supercapacidade, é um superpoder.

quando, para além disso, existe ainda a capacidade de dar a chave (ou o cartão, ou o código — isto porque somos modernos e tecnológicos) para que a outra pessoa entre e saia consoante a sua vontade ou necessidade, aí já estamos a falar de ter uma supercapacidade de fazer uma supercoisa. um superpoder ao quadrado. é mesmo coisa para super-heróis.

mas, como o universo é dado a essa coisa da procura do equilíbrio, da simbiose de opostos e da simetria de forças e números, para cada super-herói existe um arqui-inimigo, um super-vilão. se bem que, por alguma razão, os vilões raramente sejam apelidados de super, não deixam de ter superpoderes, supercapacidades para destruir o que foi construído por outros ou, pior ainda, ter capacidades para transformar uma coisa boa numa coisa super-má ou numa supercoisa má.

e, na amizade, o poder-possibilidade, o que procura estabelecer um determinado equilíbrio de poderes, é artificial. não constrói, mascara. não cria laços, cria dependências. não dá liberdade, define áreas de ação e funções a desempenhar.

na amizade, o poder-capacidade de criar laços é um superpoder ao quadrado. o seu arqui-inimigo é o poder-possibilidade de criar dependências que estabelecem relações de poder.

de facto, não se pode ter muitos amigos. não se pode, não se consegue: até os superpoderes — mesmo que ao quadrado — têm limites. temos que saber aplicá-los com cuidado. temos que assegurar que somos supercapazes de sermos os nossos próprios super-heróis e não nos tornarmos os nossos próprios arqui-inimigos, daqueles que soltam uma gargalhada sempre que usam o seu poder-possibilidade para criar uma nova dependência da rede de poder.

redondo

“preocupas-te demais. não precisas de saber já para onde vou nem por onde eu vou. são destinos por definir (não tens a ilusão de que vou só para um sítio, pois não?). são estradas ainda por traçar.” e sorri. fico atenta: quero ver se vem aí uma daquelas gargalhadas que normalmente não tenho oportunidade de ver nascer mas apenas já a florir. fica-se pelo sorriso. é um sorriso firme que acaba por fazer um fade out para uma expressão neutra porém redonda. “está tudo bem. eu estou bem. e, quando deixares de te preocupar tanto, vais ser capaz de perceber que tu também estás bem. e se eu estou bem e tu estás bem, nós estamos bem.” e espreguiça-se. lânguido. e redondo. e eu não consigo tirar os meus olhos dos dele. redondos. apoiados pelas bochechas redondas. e, durante alguns segundos, não me preocupo. e sinto-me preenchida por ondas redondas como as que se formam e propagam quando cai uma pedra num lago calmo. “mas não há pedra, pois não?” ele sabe que não, que não há pedra. sabe que só há ondas. ondas redondas que brotam de um epicentro e trotam até à margem. e um arrepio. não sei se ele sabe do arrepio… não deve saber. o arrepio acontece quando a última onda atinge a margem, quando o redondo que toma conta de mim não tem alternativa senão ultrapassar os meus limites. e desaparece. quando a última onda passa a barreira da pele e se evapora. “acho que essa coisa do arrepio não é para mim, eu não tenho limites. eu tenho o superpoder de ter uma pele tão flexível que me permite expandir sempre que quero. e tão inteligente que sabe bem como filtrar o que a atravessa. em ambos os sentidos. é mesmo assim: eu tenho o superpoder de não ter limites.” e faz todo o sentido. ele tem superpoderes. e eu preocupo-me demais. talvez porque sou a primeira testemunha desses superpoderes mas sem a capacidade perceber como é possível ser tão redondo e simultaneamente não ter limites. sim, ele tem superpoderes. é isso: ele tem superpoderes. fico novamente presa nas feições redondas. com esperança de um novo sorriso (e mais ondas). mas não acontece. em vez disso, suspira, puxa o edredão e vira-se para o outro lado. só me resta dar-lhe um beijo na testa e outro nos caracóis, dizer-lhe que é a minha pessoa preferida e pedir-lhe que durma bem e sonhe com dinossauros felizes. encosto a porta e sinto novamente o arrepio sem pedra.

mas, afinal, o que é que tu queres ser quando fores grande?

– mas, afinal, o que é que tu queres ser quando fores grande?

– quero ser feliz.

– deixa-te disso. estou a falar a sério. quero saber.

– mas é isso mesmo: ser feliz.

– isso é resposta de miúda de 16 anos ou de celebridade para revista cor de rosa. dá-me uma resposta decente. sê objetiva. e concreta! usa verbos operatórios.

– quero não sentir dor ao inspirar nem culpa ao expirar.

– e no que é que isso se traduz? de que é que precisas para lá chegares? quais são os pré-requisitos?

– preciso de deixar de estar aqui. preciso de me pôr a caminho. preciso de decidir quem quero ser quando for grande.